Fabio Teixeira: Traduzir livros para crianças é coisa de gente grande – VII Congresso da ABRATES

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Fabio é tradutor de literatura infantil e deu dicas muito boas para quem quer seguir essa área. Se você pensa que histórias para crianças são fáceis de traduzir, leia a resenha e depois diga se continua com a mesma opinião. 😉

Vamos começar com algumas histórias bem conhecidas por todos. Vocês já pararam para pensar nos enredos que ouvimos e contamos há tantos e tantos anos? Virou algo praticamente “automático” reproduzir essas histórias e acabamos nem percebendo que algumas partes são um pouco pesadas e Fabio diz que, nesses casos, os editores preferem suavizá-las, dependendo da faixa etária. (Obrigada pela correção, Fabio! 🙂 ) Na história da Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, em vez de dizer que o Lobo a “comeu”, ele prefere usar a palavra “devorar”, pois sabemos a conotação que a primeira tem na língua portuguesa. Ou então, na história de João e Maria, em vez de fecharem a bruxa no forno, algo que hoje em dia causa mais choque, é melhor dizer dizer que eles botaram a bruxa para correr ou prenderam a bruxa na gaiola.

E vocês sabiam que existe a fábula da formiga e do besouro rola-bosta? Sim, é verdade! E esse bichinho existe mesmo! No entanto, podemos usar a fábula da formiga e da cigarra, mais conhecida por aqui e com um nome mais adequado para uma história infantil, concordam? 😀

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As onomatopeias também são um desafio para o tradutor. Apesar de haver algumas vozes de animais já consagradas, como a do cachorro, que faz au-au, o gato, que faz miau, o que fazer quando aparece uma coruja? Um rato? Um cavalo? Alguém tem alguma sugestão de como reproduzir o som desses animais num texto infantil? Tarefa difícil, não é? Às vezes, a saída é escrever, por exemplo, O cavalo relinchou, mas acaba não tendo o mesmo efeito.

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Outra questão que o tradutor deve ter muito cuidado é com relação às rimas. Certamente que os prazos de entrega são bastante curtos nos dias de hoje, mas vale a pena dedicar-se a um texto para construi-lo com rimas ricas e evitar as rimas pobres. Mas o que determina se uma rima é rica ou pobre? De acordo com Fabio, a rima é rica se as palavras forem de categorias gramaticais diferentes e pobres se forem da mesma categoria. Vejamos alguns exemplos na foto abaixo:

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Assim, rimas com verbos no passado ou no infinitivo, rimas com -inho e com -mente são muito fáceis de fazer. O tradutor deve sempre prezar pelo texto. Não é porque se trata de literatura infantil que não vamos ter esse cuidado. Então pesquise uma rima boa, não vá na opção mais fácil ou óbvia.

Fabio passou um trecho de um texto com rimas para darmos sugestões de como traduzi-lo. Algumas boas ideias surgiram da plateia e ele apresentou duas suas e uma indicação de como não fazer:

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Os tradutores enfrentam certas dificuldades nessa área e é preciso cautela para lidar com algumas delas. A começar pelos direitos autorais: você precisa assinar um contrato de cessão desses direitos, então não ganha nada em cima das vendas da obra, apenas pela entrega do que escreveu. Os prazos são muito curtos, não dando tempo, muitas vezes, de trabalhar um pouco mais na obra e melhorar certos aspectos do texto. Os revisores podem fazer certas correções que acabam piorando seu texto, como tirar uma boa rima que você criou. E é preciso também prestar atenção a erros dos originais, como alguma imprecisão de dados, por exemplo.

Quanto ao léxico, Fabio recomenda que seja domesticado e que não sejam usadas formas verbais complexas. Isso não quer dizer que devemos simplificar o texto, mas sim mantê-lo simples, pois ele é voltado para crianças com cerca de cinco anos de idade, em processo de aprendizagem. Precisamos considerar que a própria estrutura do inglês é mais simples que a do português, então basta manter esse aspecto do texto, deixando-o bem trabalhado gramaticalmente, porém fácil de ler.

Vimos que traduzir de livros infantis não é nada fácil. É uma atividade bastante complexa, principalmente por termos que considerar não só o aspecto linguístico, mas inúmeros outros fatores, como a adequação do vocabulário, a tradução dos nomes, a questão cultural, para saber o que soará mais natural para um público infantil brasileiro, enfim, há uma série de elementos que tornam o trabalho do tradutor uma verdadeira arte! Obrigada, Fabio, por compartilhar conosco um pouquinho desses desafios e curiosidades, ainda mais de forma tão divertida. 😀

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